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Alvo de críticas, Eliana Calmon sempre teve perfil rebelde

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Eliana Calmon contesta ação no STF pela qual a AMB pede que o Conselho Nacional de Justiça só fiscalize juízes após esgotados todos os recursos.

Em entrevista à Associação Paulista de Jornais, Eliana disse que a AMB tenta restringir a atuação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o que, para ela, “é o primeiro caminho para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga”.

Em 1976, plena ditadura militar, a baiana Eliana Calmon dá parecer favorável a um mandado de segurança dos estudantes contra a invasão da UnB por policiais. O então procurador-geral da República, Henrique Fonseca de Araújo, inverte o conteúdo para agradar o regime. Calmon não aceita e larga a Procuradoria: “Se o sr. quiser assinar, o sr. assine. Eu não assino”, reagiu Calmon. Saiu da sala dele e pensou: “Basta!”. Passou em quarto lugar no primeiro concurso de juiz que surgiu e deu a guinada que a tornaria, anos depois, ministra do Superior Tribunal de Justiça, a segunda mulher numa corte superior. Atual corregedora do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), que investiga o Judiciário, ela causou polêmica no Supremo Tribunal Federal ao dizer que há “bandidos atrás das togas”. Mas foi defendida por entidades e cidadãos. Um dos apoios foi nos bastidores do Planalto, dominado por um trio feminino. Ao ler as declarações de Calmon, a presidente Dilma Rousseff sorriu: “Essa é das minhas”. A personalidade forte, a rebeldia e a mania de falar tudo o que pensa vêm de longe para a soteropolitana Eliana Calmon, 65. Mais velha de três filhos, foi uma aluna exemplar. Mas atrevida, dava trabalho para as freiras do Colégio Nossa Senhora da Soledade.

Com 1m70, pé número 39 desde menina, se insubordinava com o critério de altura que a empurrava para o último lugar da fila e criava caso. Assim como roubava pitangas do jardim das freiras. Desinibida, falava bem. Era quem recitava as poesias e fazia os discursos nas festinhas. De quebra, arbitrava as desavenças entre os pais. Amigos da família previam: “Essa menina vai ser advogada”. Mas, ao entrar na Universidade Federal da Bahia, queria ser promotora.

A militância política foi “de esquerda light”, sem filiação partidária. Casou-se no último ano da faculdade com um militar da Marinha. Hoje divorciada, só teve um filho, aos dez anos de casamento. Moraram no Rio e em Natal, onde tirou primeiro lugar para auxiliar de ensino na Faculdade de Direito e conquistou a única vaga. Depois, foi secretária do Conselho Penitenciário até passar no concurso para procuradora da República, em 74. Dois anos depois, Procuradoria-Geral da República, em Brasília. E, enfim, juíza. Atuou dez anos como juíza na Bahia, foi promovida depois para o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, englobando 14 Estados, mas com sede em Brasília. Foi aí que ela articulou o núcleo original da Escola de Magistratura. Uma de suas máximas é que “juiz não pode estar só”.

Quando decidiram lançá-la para ministra, assustou-se: “Eu? Ministra? Irreverente desse jeito?!” Perdeu passivamente da primeira vez, mas se mexeu na segunda. Calmon havia relatado um processo de interesse do senador Edison Lobão (hoje ministro de Minas e Energia), que a procurou e pediu informações. Após a decisão -favorável a ele-, ela lhe enviou uma cópia da peça. Candidata ao STJ, ela se lembrou e usou implicitamente o princípio de reciprocidade. Lobão se tornou seu maior cabo eleitoral, junto ao senador Jader Barbalho (PA), à época presidente do PMDB. O cerco fechou quando o candidato do senador baiano Antonio Carlos Magalhães foi preterido. Ele telefonou para Calmon: “O presidente [Fernando Henrique Cardoso] tem compromisso com a Bahia, e a senhora tem muitos amigos”. Virou ministra.

A história foi contada pela própria Eliana na sua sabatina no Senado com duplo intuito: agradecer o apoio, e tornar-se impedida de julgar qualquer ação envolvendo ACM, Lobão e Barbalho. Apesar da imagem de mulher forte, destemida, irreverente, Eliana Calmon adora cozinhar e publicou o livro “Receitas Especiais”, cuja renda vai toda para uma instituição de caridade. Malha todos os dias às 6h, dirige o próprio carro, gosta de perfumes, colares e roupas modernas. No celular, uma foto do neto Miguel: “O homem da minha vida”, diz.

Fonte: Folha Online

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