Início Artigos Ulysses Amorim escreve – Santo Amaro é uma mostra de que punição...

Ulysses Amorim escreve – Santo Amaro é uma mostra de que punição exemplar não inibe novos ilícitos na administração pública

0
COMPARTILHAR
Print Friendly, PDF & Email
Prevenir a administração pública contra o desvio de verbas é mais fácil do que recuperar o dinheiro desviado e mais ético do que punir agentes públicos e políticos, sem que se tenha como implicação o devido ressarcimento à sociedade dos danos coletivos causados.
Dito isso, podemos discutir outras obviedades que, para a maioria dos brasileiros batizados em estádios de futebol e educados em escolas de samba, são pensamentos sofisticados cultivados na mente de quem possui a grife da genialidade, ou a franqueza de inteligências amamentadas até os três anos de idade.
Sem dramatizar excessivamente. Não se pode calcular o prejuízo das centenas de mortes pelo colapso nos hospitais públicos, os quais não podem respirar sequer por aparelhos, pois lhes faltam, até, míseros botijões de oxigênio e responsabilidade.
Não se pode calcular o estrago feito no sistema de ensino, quando o desestímulo dos baixos salários, e seus atrasos, respondem a lista de chamada nas salas de aula, educando as novas gerações para a criação de Estados paralelos, com suas formas de comando e suas legislações próprias.
Não se pode mensurar os impactos causados em todos os parâmetros de medida do desenvolvimento humano numa comunidade, quando o dinheiro público (que é fruto da expropriação do trabalhador pelos assaltos dissimulados nos tributos) não constrói redes de esgoto e abastecimento d’água, não pavimenta ruas e não ilumina as noites vadias da juventude violentada pelo desemprego e pela insegurança social.
Se o cálculo preciso do ônus causado pelo ‘roubo do dinheiro de todos’ não é possível, também não é presumível se fazer justiça nesses moldes. Ainda que todo o dinheiro ilegal seja retirado dos malfeitores sociais, não se indeniza a civilização pela corrupção que lhe aparece mais  como um folguedo cultural, do que um crime.
A corrupção, inclusive, é identificada pelo próprio ente coletivo nacional, em sua ideia de povo, como símbolo de esperteza política nos amplos e difusos setores da sociedade. Alegoricamente, até a gíria antiga “fala malandro!” já foi atualizada para “diga aí mafioso!” – a linguagem define nossa gente.
Recentemente, na cidade de Santo Amaro, cujo promotor público foi alçado à honra (para os virtuosos) de participar da maior operação de combate ao câncer brasileiro, sucessivas prisões de agentes públicos foram realizadas, com efeito, pelo menos, moral para os punidos. No entanto, para grande parte da classe política local, as ações da justiça não serviram de elementos intimidadores para práticas nefastas tradicionais na política.
Nas palavras do exemplar timoneiro do Ministério Público de Santo Amaro, a respeito das últimas administrações municipais, “quem passou não deixou boas lembranças, quem acabou de sair também não deixou boas lembranças, e que a atual gestão não repita os erros daqueles que saíram” –  Todavia, é necessário que se ressalte, a repetição de erros é causada por um vírus mutante no sistema da máquina pública, alimentado geneticamente pela sensação de impunidade, pela lentidão da justiça e pela determinação de penas brandas.
É comum vermos, mesmo após a operação “Adsumus” da Polícia Federal (que revelou a apatia da população em relação às sentenças judiciais), calorosas discussões na Câmara Municipal, inclusive com a divulgação de vídeos na internet, nas quais representantes do Poder Legislativo revelam, em plenário, esquemas ilícitos envolvendo variados agentes públicos.
Denúncias que, pelo teor dos detalhes, humilham a cidadania, no sentido de simularem que a democracia brasileira é meramente eleitoral , e que passadas as eleições nada mais se pode fazer contra os “delegados do poder”. Como se não existissem outras instituições dentro do regime  democrático  capazes de sustentá-lo, para além daquelas da esfera política.
Falar abertamente, em ambiente oficial de representação do poder (a Câmara de Vereadores), sobre malversação de milhões, de conchavos entre poderes, de desmandos administrativos, de irregularidades regimentais, de contratos ilegais, de nomeações irregulares, de fraudes em documentos, parece ter virado uma moda, sem que se tenha a exata noção das conseqüências efetivas desse ato para a ordem vigente.
A repetição de personagens das páginas políticas nas páginas policiais dos jornais traz uma só certeza, a de que muitos possuem frieza de caráter para suportar a consciência de experimentar,  um dia, a temperatura da sela de uma cadeia. E mais que isso,  a capacidade desses de suportar o desmoronamento das geleiras de suas ambições, através do derretimento de cada centavo acumulado indevidamente sob as sombras da vaidade, da inconsequência, da irresponsabilidade, da estupidez e da prepotência.
Que nome se dá a insana intrepidez dos homens para os quais a lei não faz sentido?
Ulysses Amorim é  Compositor, Comunicador e Cientista Político, Especialista em Antropologia e Cultura Política do Recôncavo,  formado pela Universidade Federal da Bahia.

*Os comentários não representam a opinião do portal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

O BAHIA POLÍTICA não se responsabiliza pelo conteúdo, opiniões e comentários dos freqüentadores de nenhum produto interativo. O conteúdo publicado por visitantes nas categorias de notícias ou canais de produtos interativos não é revisado ou fiscalizado pelo BAHIA POLÍTICA.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here